MÁRTIRES DO DOURO
A ponte de Entre-os-Rios, em Castelo de Paiva contava com 116 anos de serviço. Resistiu a 115 invernos, às brutais enxurradas do Douro antes das obras de regularização do caudal e até a um atentado à bomba no século passado. Sucumbiu no entanto perante aquilo para que não foi construída : o abandono.
Um número ainda indeterminado de portugueses, certamente bons cidadãos, foram imolados nas águas do mais conhecido Rio de Portugal. Talvez pelo casamento do Douro com o vinho do Porto, a notícia teve um eco redobrado pelos quatro cantos do Mundo, abrindo Telejornais e primeiras páginas dos títulos internacionais, para maior vergonha do Estado Português, membro de pleno direito da Comunidade Europeia e por ela subsidiado em centenas de milhões de contos, precisamente para Obras Públicas.
Todas as grandes causas têm os seus mártires. Que a causa destes Mártires do Douro seja a do despertar da classe política para os problemas reais da sociedade portuguesa. As pontes sem conservação são apenas a ponta do iceberg, apenas visível para todos quantos as enfrentam diariamente. As estradas em péssimo estado e com sinalização degradada, a insegurança, a desigualdade entre o litoral e o interior com a desertificação deste, a centralização sufocante da administração pública são igualmente apenas superfícies visíveis do grande problema que é a realidade virtual em que vivem os dirigentes do país, estes e os anteriores, e a burocracia reinante.
Para quem os cidadãos são apenas números : de contribuinte, de utente, de eleitor; para quem vive no mundo das siglas, espécie de criptocódigo para a classe dos iluminados; para quem as cheias se medem em caudais de metros cúbicos por segundo, os incêndios em hectares(ou campos de futebol como agora estupidamente os comparam) e não pelas reais consequências nas populações; para quem as pontes em mau estado são apenas relatórios esquecidos no tampo da secretária de um qualquer sub ou director ou secretário ou ministro.
A morte destes portugueses tem que significar o fim deste Estado virtual que nos ignora. Segundo o Presidente da República o inquérito tem que ser rigoroso e ir até às últimas consequências. Não poderia ser de outra maneira nem a sociedade civil o permitiria. A partir da fatídica noite de 4 de Março de 2001 nada ficará como dantes.
É este o sentido do martírio destes portugueses.
António Carreira