A vida por vezes tem destas coisas:
trabalha-se bem e passa-se despercebido. Acontece assim por
exemplo com os árbitros de futebol – quanto melhor é o seu
trabalho menos falados são.
Parece também que é o que está a acontecer
com os municípios que, com trabalho e investimento, asseguram
nas suas áreas de intervenção uma protecção eficaz às
populações, como é o caso de Castanheira de Pera.
Com um trabalho sério e empenhado de mais
de duas décadas nas áreas de prevenção e vigilância, o nosso
concelho tem visto afastadas do seu perímetro as grandes
catástrofes de Verão que são os fogos florestais. Como
contrapartida, em vez de ter o incentivo e o investimento
público para dar continuidade a este trabalho, vê-se cada vez
mais a braços com cortes orçamentais que implicam a redução,
pelo menos em eficiência, dos seus meios operacionais. É que sem
catástrofes não há Comunicação Social nacional para, pelo menos,
nem que seja pela negativa, estes concelhos ocuparem as
primeiras páginas dos jornais e aberturas dos serviços
noticiosos das rádios e televisões nacionais. E sem cobertura
mediática não há governo que se preze que venha ao meio do
pinhal ver o que está a ser bem feito pela preservação das
nossas florestas. Como ouvi há alguns anos, é muito pouco
provável ver um ministro ou secretário de estado a inaugurar uma
torre de vigia ou um estradão florestal.
No dia 11 de Agosto de 2003 estava uma
daquelas tardes infernais de calor acima dos 40 graus. O país
ardia, e sobre o concelho de Castanheira de Pera formava-se uma
trovoada. Os bombeiros tinham grande parte dos seus meios
disponíveis empenhados no combate ao incêndio que havia
deflagrado na CGD, às 14.00 horas. Por volta das 16.00 horas
ouvem-se as primeiras descargas eléctricas e soa o alarme para a
zona dos Rapos, onde a faísca tinha caído num eucaliptal. Tive a
oportunidade de acompanhar os bombeiros, juntamente com o Filipe
Lopo, do Notícias do Pinhal, uma vez que ambos estávamos de
"prevenção" no quartel, perante a grave ameaça que era uma
trovoada seca com aquele calor. Subimos aos Rapos, deixámos a
estrada de alcatrão para uma estrada florestal, e depois para
outro ramal também em terra, e fomos dar a 10 metros do local do
incêndio, menos de dez minutos depois de ter sido detectado
pelas vigias. Ao chegarmos verificámos que o fogo estava
dominado por uma brigada de sapadores florestais, no caso da
Associação de Compartes, que estava em missão de vigilância nas
imediações. Teriam ardido pouco mais de 20 ou 30 metros
quadrados. Anos de trabalho em prevenção e vigilância tinham
dado os seus frutos naquele preciso momento. O que poderia ter
sido mais uma catástrofe neste Verão negro de 2003, foi apenas
mais uma pequena ocorrência.
E afinal, esta pequena ocorrência, como
outras dezenas que ocorrem todos os verões, não merecem a
atenção dos media nacionais, possivelmente na altura ocupados a
contar milhares de hectares de área ardida, milhões de euros de
prejuízo, e dezenas de vidas humanas perdidas.
Porquê?