Quando fui alertado para o
ataque ocorrido no dia 11 de Setembro contra a mais poderosa nação
mundial, estava a trabalhar na redacção no fecho desta edição.
Quem ligou, por telemóvel, dizia que tinha começado a 3ª Guerra
Mundial. O que parecia ser uma brincadeira revelou-se, com uma
simples deslocação para junto de um aparelho de televisão, numa
dura e triste realidade.
Fixei o termo "3ª
Guerra Mundial" e sugeriu-me uma reflexão. Terá de facto
começado o terrível e final conflito mundial?
Uma breve e improvisada
busca mental à fraca memória do meu cérebro leva-me a concluir
que não será assim. Apenas porque na realidade a "3ª Guerra
Mundial" foi iniciada quase há três décadas.
Lembrei-me do Setembro
Negro, ocorrido durante os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972,
onde a selecção olímpica de Israel foi chacinada por um comando
palestiniano da OLP. E, a partir daí, este "modus operandi"
passou a entrar no quotidiano das nossas pequenas vidas.
Foram as "Brigate Rossi"
italianas, o "Baden Meinhoff" alemão, a ETA no vizinho
País Basco, o IRA irlandês, as "Brigadas Revolucionárias 25
de Abril" de triste memória entre nós, inúmeras guerrilhas
na América Latina, Filipinas e Indonésia, e mais recentemente
grupos dissidentes islâmicos, desde o "Abu Nidal" à
organização liderada por Bin Laden, apontada como presumível
responsável por este atentado nos Estados Unidos. A estas
organizações poderemos juntar outras tão dispersas como as mafias,
italianas e não só, cartéis da droga e outros criminosos, gangs
urbanos de jovens marginais (ou marginalizados?) que pelo mundo fora
têm semeado o medo, a morte a destruição. Ou as organizações
neo - qualquer coisa, fascistas, nazis, algumas igualmente
representadas em Portugal pelo MDLP e ELP, e mais recentemente pelos
bandos de cabeças rapadas.
Com maior ou menor
eficiência, com maior ou menor cobertura por algum estado marginal
ao direito internacional, todas estas organizações causaram, de
há trinta anos para cá, milhares de vítimas e prejuízos
económicos incomensuráveis.
As respostas musculadas dos
Estados a esta Guerra têm tido como resultado apenas um recrudescer
progressivo da violência sem que se possa vislumbrar um fim para
esta tragédia, que agora, na época da globalização, nos atinge
por inteiro, quer vivamos em Long Island ou na Serra da Lousã. Daí
que se possa concluir que esta não é a resposta correcta!
Para responder cabalmente a
qualquer problema, é fundamental, antes de tudo, perceber, em toda
a sua amplitude, qual é de facto o problema.
Saber dialogar implica,
desde logo, tirar a nossa casaca de ocidentais, orgulhosa e
detentora de "toda a verdade conhecida e desconhecida" (no
caso dos movimentos islâmicos), ou de burgueses acomodados ao
"deixa andar que eu estou bem assim" (no caso dos
nacionalismos, europeus e não só).
Compreendemos que não é um
exercício fácil. Requer alguma cultura e muita flexibilidade
intelectual. E que também, por detrás duma realidade que parece
ser óbvia, se esconde, por vezes, outra bem mais complexa. Basta
atentar ao andamento das conversações de paz na Irlanda do Norte
para o perspectivar.
É no entanto algo que tem
que ser feito, e com urgência. Enquanto os estados ocidentais
mantiverem a atitude de avestruz, continuaremos a assistir, e a
sofrer na pele esta carnificina.
António Carreira