Termodinâmica do Sonho
Um rapaz nada feio e, coisa extraordinária, tinha um feitiço no meio...!
(do 1º poema – conhecido - de Rómulo de Carvalho, escrito perante um espelho, aos cinco anos)
António Gedeão, poeta em cuja certidão de nascimento constava o nome de Rómulo de Carvalho, é possivelmente um dos últimos exemplares de uma estirpe de humanistas em (sérias) vias de extinção.
Rómulo de Carvalho era, entre muitas outras coisas, professor de física. Editou, a partir de 1952, vários livros didácticos onde a física era explicada de uma forma divertida, revolucionária para o tempo, lúdica, com exemplos retirados da vida nor mal. Os seus livros seduziram muitos dos seus alunos para a continuação dos estudos nos campos mais áridos das matemáticas e das ciências - sem nunca perderem o encantamento inicial que o seu professor lhes tinha transmitido.
Rómulo de Carvalho tinha outra vocação: gostaria de ser marceneiro. Quiseram as circunstâncias da vida que ficasse professor. Então, para juntar vocações, fez insta lar um banco de carpinteiro no laboratório de física do seu liceu, onde fazia, com as suas mãos e ferramentas, os materiais necessários para as demonstrações didác ticas. Além disso, ainda desenhou e construiu os móveis da sua própria casa.
Havia ainda outra vocação em Rómulo de Carvalho: proveniente da sua alegria de viver, do encantamento perante as coisas do mundo existia um poeta, lá dentro do professor marceneiro. Talvez à semelhança de Fernando Pessoa, que não podia conter tanta gente dentro dum só nome, Rómulo de Carvalho gerou António Gedeão. E António Gedeão gerou poemas, hinos à vida, á dignidade dos homens e à sua inesgotável capacidade de inventar. A "Pedra Filosofal" é, porventura, a sua obra mais conhecida, mas também "Lágrima de Preta", cantada no cenário de uma guer ra colonial de (já fraca) má memória, entre outras trovas, demonstram que é possível - diria mesmo, indispensável - a coexistência do rigor tecno-cientifico com a capaci dade de nos maravilharmos perante a simplicidade das coisas da vida e de nos indignarmos com ignomínias como o racismo ou a guerra.
É tarefa do ensino - e aqui incluo todos os locais de aprendizagem, promover e estimular a descoberta e a compreensão (e a consequente celebração) dos mundos escondidos da ciência, da técnica e da invenção que existem em cada aparelhagem ou bem de consumo que possuímos ou manipulamos. O papel em que este texto está impresso não transporta apenas estes caracteres: existe um número infinito de histórias, dramas, sofrimento e alegria, descobertas técnicas, autos-de-fé, excomunhões, que permitiram aos homens, desde Gutenberg (antes, até), partilhar ideias, saberes, utopias. Estas folhas de papel escondem, portanto, uma infinidade de coisas insuspeitas. Basta pensar (e investigar) um pouco, que as descobriremos. E nunca mais as olharemos com a mesma displicência.
O mesmo se aplica ao relógio que trazemos no pulso. Ao botão que aperta a camisa. À trama e teia das minhas calças de ganga. À esferográfica com que muitas vezes trabalhamos ou tiramos apontamentos nas aulas. Mesmo naquelas mais chatas.
Pedra Filosofal
Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
mascara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.
António Gedeão, in Movimento Perpétuo, 1956
O sonho terá de se constituir como um componente indispensável na nossa vida, isto se não quisermos perpetuar esta loucura da vida contemporânea, que espera desse mesmo ensino a mera produção de especialistas. Especialistas - como diz Boaventura Sousa Santos - ignorantes. Temos de nos doutorar – todos - na capacidade de sonhar.
Se ainda quisermos ser humanos.
Cristina Bernardo