Sonhos de uma Noite de Inverno
Cai fortemente lá fora.
Pela espessura da luz projectada pelos candeeiros que iluminam o jardim das traseiras, caem abundantes flocos de neve, como se de açúcar se tratasse. Nada se ouve, só se pressente o som branco que cobre persistentemente a neve e o gelo dos dias anteriores.
Daqui a pouco a temperatura descerá ainda mais, por fim o pó branco descansará e, com dez graus negativos, esperar-se-á pelo princípio da manhã para que as primeiras pegadas de um distribuidor de jornais profanem o alvo campo.
Estou na cozinha. Na sala corre a leve música de um cêdê e sorrio ao mirar o termómetro exterior e pensar e sentir que cá dentro há uma temperatura constante de vinte e três graus positivos.
Gosto da neve. É leve ( até rima!), - pelo menos nestes floquinhos celestiais -, transforma a paisagem e enche de luz este Inverno custoso, que é o do Norte europeu.
Bate, bate levemente..., sibilo contra o vidro, numa corruptela do poema aprendido há muito na escola primária. Suspiro. Há neste nevão, melhor, em cada pedaço de neve, algo de poético, um pouco de uma canção de Ary dos Santos, um verso de Camões, um olhar de Torga, uma audácia de Pessoa(s), (o Fernando e o Joaquim, pois então!), uma festa de Zé Gomes Ferreira, como quem chama por mim... e neste chamamento, tão longe que estou ( ou talvez por isso!), penso no meu país.
Estou agora, transportado num floco de neve, em Castanheira. Vem-me à memória a vila da minha infância num dia de nevão, os bonecos mudos de frio à frente dos meus olhos, o negro chapéu-de-chuva quase branco, os caminhos atapetados, alegremente pisados pelas risadas incontidas. Miro mais uma vez através da janela e ao longe julgo ver a Serra da Lousã ricamente vestida de branco, envergando um diadema chamado Trevim, como se fora uma noiva prestes a desposar o vale feliz.
Muitos anos, muitos momentos da minha infância passam pelo vidro duplo, esta neve não é a mesma mas tem o estranho condão de me fazer sonhar acordado.
Aqueço um chá e regresso à janela. O termómetro exterior continua a descer e o salpicado contínuo da neve não pára. De Castanheira sou transportado para um outro lugar, voo sem que fisicamente me mova, a língua passa pelos meus lábios. Gulosamente!
Estou em Belém.
Não, não no presépio; não, não no Palácio rosa! Mas sim sentado numa mesa, polvilhando, ainda quente, um pastel de nata. De Belém!
Há saudades assim, não só das paisagens do meu país mas também dos seus sabores.
Há lembranças assim: dos tempos idos, das suas cores, dos seus sons, das revelações que um simples farrapo de brancura então me traziam, na descoberta da vida.
Acabado o chá, saio da janela e preparo-me para dormir.
No dia seguinte, caminhando na rua para a paragem do autocarro, um floco de neve cai-me na boca e durante o dia inteiro vi-me menino e o ar soube-me a canela.
Sorrio. Quantas imagens, gostos, sensações cabem num único floco de neve? Mil e uma? Setenta vezes sete? Ou simplesmente o infinito!?
Enfim, sonhos de uma noite de Inverno!
Fernando Rodrigues
Estocolmo, Março de 2001