0,4 Café
Li uma notícia numa secção de ciência de um qualquer jornal. Aí relatava-se um estudo científico que concluiu que a produtividade dos indivíduos era afectada caso tomassem mais que 3,5 cafés por dia, ou o equivalente em refrigerantes com cafeína, insinuando-se que muitos patrões, ao tomarem conhecimento deste estudo, mandariam retirar as máquinas de café dos locais de trabalho.
As inevitáveis interrogações: se tomar 3,4 cafés a minha produtividade mantém-se inalterada? Como faço para tomar 0,4 café? E o café é expresso, de saco, de máquina, solúvel, descafeínado? É que não dizia. E eu gostaria de saber, pois preocupo-me com a minha produtividade e com o meu desempenho.
Mais para o fim da notícia, referia-se que o estudo tinha sido encomendado por uma empresa de água mineral. Pois.
Novas perguntas: se fosse um fabricante ou distribuidor de café, ou uma empresa de refrigerantes com cafeína a encomendar o estudo científico, as conclusões seriam as mesmas? Ou não se detectaria uma preocupante tendência para o absentismo ou o desleixo profissional nos trabalhadores que bebessem água, provocada pelas frequentes idas à casa de banho? Compensada, naturalmente por um desempenho acima das expectativas pelos bebedores de 3,6 ou mais cafés por dia?
Estes estudos ‘científicos’, encomendados por partes interessadas nos resultados, cada vez menos me convencem. Sejam os estudos rigorosíssimos, financiados pelas tabaqueiras, para demonstrar que não existe correlação entre a nicotina e o cancro do pulmão, sejam os outros, financiados pelos lobbies anti-tabaco, que demonstram à saciedade exactamente o oposto.
Esta prostituição da ciência (ainda se chama assim) aos interesses de quem paga, mais não é do que a reprodução de toda a nossa vida social, cultural, política, intelectual. Em todos os domínios onde o desempenho livre da criatividade e das actividades de investigação deveria ser a regra, o cheque mecenático vindo da fundação que desinteressadamente apoia a actividade em causa, mais não é do que o velho saco com trinta moedas de prata de que falam as crónicas da nossa história colectiva. E a verdade, a inovação, a verdadeira descoberta humana, ficam arquivadas, à espera de outro tipo de mecenas. Que nunca virão.
Jorge Bacelar
In: Jornal do Interior , 2001.02.02