AQUELE FEITIÇO DA TERRA
Aqui pela cidade, sempre a pensarmos nela, fazendo riscos na vidraça baça da janela, neste Inverno excessivo. E eis que toca o telefone—Tio, dentro de uma hora estou aí. E é que estava mesmo! Aquele feitiço da terra não nos dava tréguas...
Perfurando a noite escura desfeita em água, em breve atracávamos ao Poço Corga, aquele cais reconfortante, todo ele uma saudade feita de xisto. Um silêncio esverdeado e molhado, apenas denunciado pelo marulhar calmante da cheia gorda da ribeira que corria na escuridão, ali mesmo a nossos pés. Ribeira das águas correntes permanentes, claras e brandas, segundo útero de sucessivas gerações. Palco ribeirinho de sonhos e aventuras nos nossos tempos de meninos—Pranchas cobertas de resina em chamas, lançadas na tormenta, em tempo de cheias gordas, navegando perigosamente a caminho do velho açude, clarões rubros, fumos negros em fundo pardacento e movediço, tragédias, naufrágios iminentes nas mentes ardentes de infantes. Ribeira de Pêra, o grande manancial de águas doces(ainda quase puras) que correm apressadas, deixando para trás, nas suas margens, apenas os sinais da fúria de alcançarem um qualquer destino muito distante...
Quando se chega á Castanheira (A plataforma verde da perdição)não há mais sossego, nem parança. Um desatino total, fortemente oxigenado, coisa sem explicação ( A leveza do ser, opera-se aqui, em plenitude). Rodopiámos à toa pelo casco antigo da vila ( Parabéns à Autarquia ; as aldeias aguardam também a sua oportunidade).Tomámos a bica no Henrique ("Zé Coelho"), entrámos no "Sr. Adelino Caetano" e perguntámos se ainda havia canetas de pau com aparos de corôa inglesa (O nosso pedido de desculpas à simpática Senhora que nos atendeu; a emoção fizera-nos recuar, subitamente, muitas décadas no tempo); todo o recheio da primitiva, toda a antiga ambiência, estavam ali ainda bem patentes, em muito, intactas; quase tudo como há mais de um moio de anos atrás, quando mocinho acompanhava minha mãe que àquela loja ia mercar os aviamentos para as nossas vestimentas, que ela própria costurava nos escassos momentos que lhe sobravam das canseiras das lavouras. Emoções verdadeiramente fortes! (A"dona Delfina" estava encerrada e o " Senhor Nascimento" também—-barco de proa redonda encalhado à entrada para a Praça, memória viva muito antiga). Espreitámos ainda na vila muitas outras coisas velhas e novas e também as obras em marcha da Casa do Tempo (Memória de CASTANHEIRA DE PERA do tempo passado, presente e futuro) que, de certo, será uma coisa muito bonita se TODOS assim o quizerem.. À Ponte do Torgal, as bicas grossas e equalizadas do açude, eram uma festa líquida e sonora, gratuita. Uma bela sinfonia com muitos efeitos especiais, noite e dia. Ponte do Torgal, ponto de muitas concentrações, cruzamentos e encruzilhadas, saídas e entradas (e não são ainda mais porque o troço Cimo do Torgal—Cales, continua por aprontar).
O Bolo + Poço Corga (centro geodésico do concelho e sede da "freguesia dos lugarinhos") foi também ponto obrigatório das nossas paragens. Esta zona deve ter sido, em tempos não muito recuados, talvez o "primeiro parque industrial" da região. Senão vejamos: Fábrica de lanifícios do Bolo e" casas de terras" circundantes, esfarrapadeira( a moderna "garné"), fábrica de resina (Pez louro e aguarrás),lagar de azeite, moinhos de azenha, padarias, latoaria e marcenaria, ferradores, endireitas, corticeiros e tendeiros; madeireiros - serradores; términus de ligações diárias com a capital("carreira de Lisboa"), escola primária "central" (Mansão Aguiar- Cortezes), "centro balnear" (Poço Corga) e de culto(NSª da Guia), por arrasto, e muitas e variadas vendas e lojas de comércio; e, em tempos ainda mais recuados, "estação de serviço" de carros e carrêtas, almocreves, cavaleiros e ganadeiros, carregando mercadorias, gados e sonhos; no Bolo tomavam alento para se lançarem na subida dos contrafortes que conduziam ao Cabeço do Pião, de onde se iam apartando para os mais diversos destinos.
Bolo + Poço Corga (Palavras mágicas!), binário de muitas expectativas, semente promissora em tempos de turísmo nascente, encruzilhada das sete estradas, com outras tantas saídas e entradas.(E mais um parêntesis para perguntar—Em que pé os "projectos holandeses"? Para quando coisa que se veja nas terras da Berranta?). Foi sempre uma roda viva, mas, e ainda assim, tivemos tempo para subir à serra. Entrámos pelo "Fontanário das 13 Bicas" (14 para supersticiosos), em fase de acabamentos, ali mesmo no portal de entrada para o monumental anfiteatro natural que é a grande "Cova do Cabril", soberba construção da Natureza(Em nossa opinião o sítio mais singular do nosso concelho). Não temos na Castanheira monumentos antigos(com séculos), mas sempre tivemos, de certo, monumentos orográficos com muitos biliões de séculos, construções(A custo zero) do Universo a que pertencemos. E, como é hábito, subimos ao Cabeço do Pião, e mais uma vez contemplámos dali, o vasto mar ondulante verde escuro que se espraia a partir do Trevim para Sul e Nascente, a perder de vista. Fantástico! E continuamos a não entender a razão porque esta formidável "amazónia lusitana" permanece zona deprimida. Já não falamos noutras áreas de desenvolvimento, mas quanto ao turismo de montanha, rural ou coisa que o valha (Agora tanto na moda), não se percebe bem porque não descola ele de vez, voa mais alto e entra decididamente na velocidade de cruzeiro. (Mas, num qualquer futuro, lá terá que ser—E, então, um metro quadrado nas Estevianas, passará a valer muito mais que um metro quadrado nas Estefânias ...).
Não resistimos ainda a dar mais um pulo á Barragem do Cabril (O outro Cabril), sempre desejado. Vimos (pela primeira vez) o espectáculo extraordinário das descargas turbinadas, e de emergência, simultâneas por razões de segurança. Vimos dali, e mais uma vez, a imponência e elegância da nova ponte filipina (com os seus velhos carreirinhos de acesso), quase submersa pelo inusitado caudal. E, claro, espreitámos também o grande "buracão" aberto na estrada pelas incertezas e surpresas sempre contidas e escondidas na Natureza , imprevisibilidades que o homem nem sempre consegue evitar.
E neste nosso frenético rodopiar sempre fomos pensando quanto as "zonas verdes", e serão sempre, a excepção nas grandes metrópoles litorâneas e , por aqui, são ainda a regra forte, embora já muito abastardadas e monótonas (de floresta autêntica ou quase, já têm pouco).E a propósito queremos dar aqui os nossos sinceros parabéns ao Engº José Pais pelo seu excelente artigo no jornal "O Castanheirense" sobre o castanheiro. Nos anos 30 ainda havia na nossa região soutos à mão, ou dispersos pelas quebradas, de se lhes tirar o chapéu. Agora apenas sumídos vestígios deles. E queria Deus que os nossos velhos carvalhais (e sobreiros dispersos) não venham a ter a mesma sorte.
E na hora da despedida olhámos uma vez mais ainda para o Trevim, com uma certa estranheza e uma perversa saudade. Sobre ele avistavam-se as "brancas" de granízo que caíra, em vez de neve, que agora rareia. Porquê? — Resultado, das temperanças que vêm das albufeiras do caudaloso Zezere, ou já os efeitos de estufa a crescerem em altitude? Com neve, ou sem ela, em breve a rebentação das mimosas, a flor amarela cheirosa que antecipa o Carnaval e anuncia a orgia da Primavera.
No regresso para Lisboa pensávamos já no regresso inverso (síndroma das altitudes?). Desta vez o cozer dos reis foi o pretexto. O próximo qual será?
Ernesto Ladeira